Exposição Individual Solo Exhibition
Sismógrafo, Porto
15.11.2025 — 10.01.2026

O monte não é um local concreto, mas um território intermédio — entre o natural e o humanizado, entre o visível e o indefinido. Mais do que uma geografia, é uma condição de fronteira, onde as várias forças se cruzam e continuam a negociar o espaço, a memória e o tempo. Volto sempre a esse meio-ermo. É aqui que tudo se mantém em órbita, apesar da dispersão.
The 'monte' is not a concrete location, but an intermediate territory — between the natural and the humanised, between the visible and the undefined. More than a geography, it is a border condition, where various forces cross and continue to negotiate space, memory and time. I always return to that semi-wilderness [meio-ermo]. It’s where everything remains in orbit, despite the dispersion.

O meio-ermo de Alexandre Delmar
/ Texto de folha de sala por Maria Manuela Restivo
Foi em 2020 que conheci o trabalho do Alexandre Delmar. Percorria, com pouca convicção, as salas da Bienal de Cerveira até me deparar, já quase no final da exposição, com o vídeo ”A fala das cabras e dos pastores”. A minha disposição mudou imediatamente. A letargia deu lugar ao entusiasmo, como sempre acontece quando nos deparamos com uma obra que nos faz afirmar: “ainda bem que vim cá”. Esta obra condensa, a meu ver, tudo aquilo que queremos da arte contemporânea: ela surpreende, instiga, destabiliza, diverte. Para quem, como eu, não é fã do tédio e da desorientação provocados por grande parte da produção videográfica contemporânea, obras como esta funcionam como contrapontos luminosos.
Para além do prazer de visionar o vídeo enquanto espectadora, chamou-me a atenção a temática nele contida. Explorar as formas como os pastores comunicam com as cabras e outros animais é, afinal de contas, um tema bem caro a etnógrafos e antropólogos, sempre interessados em manifestações culturais que extravasam as modernidades institucionalizadas. Estando há dez anos a trabalhar em torno dos discursos e representações do mundo rural português, a obra levou-me a questionar se não estarão os artistas, nos dias que correm, a realizar formas de documentação de práticas culturais que não só se equiparam ao trabalho etnográfico, como eventualmente o ultrapassam, quando consideramos a sua forma e a sua eficácia. Afinal de contas, documentar implica dominar um conjunto de meios audiovisuais e textuais. E ao contrário dos antropólogos, cuja documentação em bruto tende a circunscrever-se aos sombrios arquivos dos museus etnográficos, os artistas manipulam, intervêm e transformam os materiais recolhidos com a liberdade inerente ao seu ofício, alcançando públicos bem mais vastos e heterogéneos. Ou seja: para além de ter despertado a minha recorrente “inveja dos artistas”, encarei esta obra do Alexandre como paradigmática das potencialidades de criação a partir de elementos recolhidos das formas culturais vernaculares.
A partir deste momento, passei a seguir o seu trabalho mais de perto e a integrá-lo nas minhas pesquisas académicas. Do meu ponto de vista, a sua obra constitui um dos exemplos mais acabados do que tenho caracterizado como uma “viragem ancestral” na criação e no pensamento contemporâneos. O diálogo com a ruralidade tem-se evidenciado nos últimos anos na prática artística e literária, fruto quer da falência da produção capitalista extrativista, quer da vontade de investigar e resgatar saberes e práticas que afinal não são assim tão anacrónicos como foram sendo concebidos pela modernidade da ordem e progresso. Mas é também fruto de uma geração que, na sua maioria, não viveu diretamente o mundo rural na sua quotidianidade, mas que com ele contactou por via de pais ou avós residentes nas aldeias onde se iam passar os fins de semana ou as férias grandes. Há, por isso, uma vontade generalizada de interpelar e procurar dar sentido a esse modus vivendi e às substâncias que ele produziu, sejam saberes, técnicas ou vestígios em paisagens que com Álvaro Domingues aprendemos a chamar de transgénicas. Trata-se de formas culturais híbridas, heteróclitas ou liminares, situadas entre uma contemporaneidade por cumprir e um tradicionalismo que tem tanto de real como de ficcional.
Este é precisamente o caso de Alexandre Delmar, que passou (e ainda passa) longas temporadas na aldeia de Lagoa, lá em Trás-os-Montes. Ao contrário, porém, dos que experienciam o mundo rural enquanto espetáculo que se desenrola perante o olhar, o artista participou desde cedo da prática de certas tarefas agrícolas – como a apanha da azeitona ou o apoio ao pastoreio de rebanhos – acompanhando ainda as diversas atividades que compõem os ritmos anuais das aldeias, como cerimónias religiosas e festividades. Tal implica desde logo uma vivência incorporada, onde o campo não está ali para ser contemplado, mas antes se traduz em trabalho, domínio técnico, conhecimento tácito, esforço físico. Ao longo dos anos, o seu interesse extravasou a aldeia dos avós, procurando o “monte” mais como uma geografia conceptual do que como um espaço físico concreto. O movimento ocupa na sua obra um lugar central, tanto pela sua metodologia de trabalho, ancorada em deslocações por diferentes territórios, quanto por muitos dos elementos que escolhe fotografar – bem visível nas obras “Ferramentas de cura” ou “Cheirar a relento”, esta última realizada em 2023 quando acompanhou a transumância dos rebanhos e pastores, de Vila Nova de Tazem para o Vale do Rossim, na Serra da Estrela. Falamos, afinal de contas, de territórios vivos. A sua inclinação pelos lugares “meio-ermos” — como os baldios e as hortas urbanas, as barragens, as fábricas abandonadas, os nevoeiros – denota precisamente a sua vontade de explorar os espaços liminares ou de fronteira, onde a natureza e a cultura, o humano e o mais-do-que-humano, o rural e o urbano, se hibridizam em formatos ambíguos. É deste lugar que Alexandre parte, e que determina, ou pelo menos influi, em certas características da sua prática artística, como bem atesta o conjunto de obras que podemos ver nesta exposição.
Não encontro na sua obra uma idealização ou romantização do mundo rural, nem propriamente uma celebração, já que o artista não se coíbe de mostrar certas imagens menos glamorosas, quando não mesmo inusitadas ou até perturbadoras. Na sua paleta, o rural não é colorido ou açucarado, mas antes escuro e sombrio, dominado por uma atmosfera que remete para o rural enquanto espaço de lendas e mitos mais-do-que-humanos. Também aqui o artista opera como um etnógrafo, ao preocupar-se em registar as histórias narradas pelos habitantes locais, às quais acrescenta uma camada ficcional.
Ao contrário de várias abordagens ao mundo rural, o artista não investe na dimensão afetiva nem na já esgotada empatia, mesmo quando nos vídeos figuram familiares seus. Certas obras operam mesmo uma certa despersonalização, um apagamento da dimensão biográfica em favor de elementos que o artista pretende relevar e explorar. O objetivo não é contar histórias ou propor narrativas, já que a sua obra não é ativista nem militante, antes se constrói através do indício, da sugestão e do fragmento. Não é uma obra explosiva mas contida, onde determinadas figuras, não necessariamente humanas, assumem uma certa solenidade ou gravitas.
E aqui entramos num terceiro ponto que merece ser enfatizado: a relação entre natureza e cultura, humanos e não-humanos, problemática amplamente abordada no campo da criação contemporânea, mas também da antropologia, onde tende a ser designado por viragem ontológica. Há muito que o artista vem desafiando a centralidade do sujeito humano enquanto protagonista, privilegiando frequentemente outras entidades – como os animais, as plantas, os fenómenos meteorológicos ou as pedras. Estas últimas ocupam mesmo um lugar de destaque em algumas das suas obras, transitando da condição de objetos inertes para substâncias vivas, como se igualassem os humanos na sua capacidade de interferir no mundo. Mas também aqui não há uma tentativa de higienizar ou enobrecer o rural. Ao contrário do que prega uma certa mentalidade urbanita, o campo nunca foi, para os seus habitantes, um lugar de igualdade e harmonia. O que a obra do Alexandre nos traz é o universo da ruralidade abordado em toda a sua complexidade, sem ativismos panfletários ou juízos de valor: ele é natureza e cultura, vernacular e industrial, mundano e misterioso, utilitário e simbólico, racional e transcendente.
















Vista frontal da exposição. Front view of the exhibition

ANO YEAR · 2025/2026
Texto de Folha de sala Exibition text · Maria Manuela Restivo
GALERIA GALLERY · sismógrafo, PORTO, PT
Produção Production · Carolina Fangueiro, Pedro Huet, Rita Senra
Montagem Assembly · Francisco Morão, Jorge Pinheiro (bahn)
Tradução e revisão Translation and copy-editing · Carolina Fangueiro
Design · Macedo Cannatà
Programa Público PUblic Program · Letícia Costelha
Programa editorial Editorial Program · Maria João Macedo
Impressão do cartaz Poster printing · Rodrigo Neto (Oficina Atalaia)
Agradecimentos Agknowledgemnts · Maria Ruivo, Maria Manuela Restivo
Exposição Individual Solo Exhibition
Sismógrafo, Porto
15.11.2025 — 10.01.2026

O monte não é um local concreto, mas um território intermédio — entre o natural e o humanizado, entre o visível e o indefinido. Mais do que uma geografia, é uma condição de fronteira, onde as várias forças se cruzam e continuam a negociar o espaço, a memória e o tempo. Volto sempre a esse meio-ermo. É aqui que tudo se mantém em órbita, apesar da dispersão.
The 'monte' is not a concrete location, but an intermediate territory — between the natural and the humanised, between the visible and the undefined. More than a geography, it is a border condition, where various forces cross and continue to negotiate space, memory and time. I always return to that semi-wilderness [meio-ermo]. It’s where everything remains in orbit, despite the dispersion.

Vista frontal da exposição. Front view of the exhibition
O meio-ermo de Alexandre Delmar
/ Texto de folha de sala por Maria Manuela Restivo
Foi em 2020 que conheci o trabalho do Alexandre Delmar. Percorria, com pouca convicção, as salas da Bienal de Cerveira até me deparar, já quase no final da exposição, com o vídeo ”A fala das cabras e dos pastores”. A minha disposição mudou imediatamente. A letargia deu lugar ao entusiasmo, como sempre acontece quando nos deparamos com uma obra que nos faz afirmar: “ainda bem que vim cá”. Esta obra condensa, a meu ver, tudo aquilo que queremos da arte contemporânea: ela surpreende, instiga, destabiliza, diverte. Para quem, como eu, não é fã do tédio e da desorientação provocados por grande parte da produção videográfica contemporânea, obras como esta funcionam como contrapontos luminosos.
Para além do prazer de visionar o vídeo enquanto espectadora, chamou-me a atenção a temática nele contida. Explorar as formas como os pastores comunicam com as cabras e outros animais é, afinal de contas, um tema bem caro a etnógrafos e antropólogos, sempre interessados em manifestações culturais que extravasam as modernidades institucionalizadas. Estando há dez anos a trabalhar em torno dos discursos e representações do mundo rural português, a obra levou-me a questionar se não estarão os artistas, nos dias que correm, a realizar formas de documentação de práticas culturais que não só se equiparam ao trabalho etnográfico, como eventualmente o ultrapassam, quando consideramos a sua forma e a sua eficácia. Afinal de contas, documentar implica dominar um conjunto de meios audiovisuais e textuais. E ao contrário dos antropólogos, cuja documentação em bruto tende a circunscrever-se aos sombrios arquivos dos museus etnográficos, os artistas manipulam, intervêm e transformam os materiais recolhidos com a liberdade inerente ao seu ofício, alcançando públicos bem mais vastos e heterogéneos. Ou seja: para além de ter despertado a minha recorrente “inveja dos artistas”, encarei esta obra do Alexandre como paradigmática das potencialidades de criação a partir de elementos recolhidos das formas culturais vernaculares.
A partir deste momento, passei a seguir o seu trabalho mais de perto e a integrá-lo nas minhas pesquisas académicas. Do meu ponto de vista, a sua obra constitui um dos exemplos mais acabados do que tenho caracterizado como uma “viragem ancestral” na criação e no pensamento contemporâneos. O diálogo com a ruralidade tem-se evidenciado nos últimos anos na prática artística e literária, fruto quer da falência da produção capitalista extrativista, quer da vontade de investigar e resgatar saberes e práticas que afinal não são assim tão anacrónicos como foram sendo concebidos pela modernidade da ordem e progresso. Mas é também fruto de uma geração que, na sua maioria, não viveu diretamente o mundo rural na sua quotidianidade, mas que com ele contactou por via de pais ou avós residentes nas aldeias onde se iam passar os fins de semana ou as férias grandes. Há, por isso, uma vontade generalizada de interpelar e procurar dar sentido a esse modus vivendi e às substâncias que ele produziu, sejam saberes, técnicas ou vestígios em paisagens que com Álvaro Domingues aprendemos a chamar de transgénicas. Trata-se de formas culturais híbridas, heteróclitas ou liminares, situadas entre uma contemporaneidade por cumprir e um tradicionalismo que tem tanto de real como de ficcional.
Este é precisamente o caso de Alexandre Delmar, que passou (e ainda passa) longas temporadas na aldeia de Lagoa, lá em Trás-os-Montes. Ao contrário, porém, dos que experienciam o mundo rural enquanto espetáculo que se desenrola perante o olhar, o artista participou desde cedo da prática de certas tarefas agrícolas – como a apanha da azeitona ou o apoio ao pastoreio de rebanhos – acompanhando ainda as diversas atividades que compõem os ritmos anuais das aldeias, como cerimónias religiosas e festividades. Tal implica desde logo uma vivência incorporada, onde o campo não está ali para ser contemplado, mas antes se traduz em trabalho, domínio técnico, conhecimento tácito, esforço físico. Ao longo dos anos, o seu interesse extravasou a aldeia dos avós, procurando o “monte” mais como uma geografia conceptual do que como um espaço físico concreto. O movimento ocupa na sua obra um lugar central, tanto pela sua metodologia de trabalho, ancorada em deslocações por diferentes territórios, quanto por muitos dos elementos que escolhe fotografar – bem visível nas obras “Ferramentas de cura” ou “Cheirar a relento”, esta última realizada em 2023 quando acompanhou a transumância dos rebanhos e pastores, de Vila Nova de Tazem para o Vale do Rossim, na Serra da Estrela. Falamos, afinal de contas, de territórios vivos. A sua inclinação pelos lugares “meio-ermos” — como os baldios e as hortas urbanas, as barragens, as fábricas abandonadas, os nevoeiros – denota precisamente a sua vontade de explorar os espaços liminares ou de fronteira, onde a natureza e a cultura, o humano e o mais-do-que-humano, o rural e o urbano, se hibridizam em formatos ambíguos. É deste lugar que Alexandre parte, e que determina, ou pelo menos influi, em certas características da sua prática artística, como bem atesta o conjunto de obras que podemos ver nesta exposição.
Não encontro na sua obra uma idealização ou romantização do mundo rural, nem propriamente uma celebração, já que o artista não se coíbe de mostrar certas imagens menos glamorosas, quando não mesmo inusitadas ou até perturbadoras. Na sua paleta, o rural não é colorido ou açucarado, mas antes escuro e sombrio, dominado por uma atmosfera que remete para o rural enquanto espaço de lendas e mitos mais-do-que-humanos. Também aqui o artista opera como um etnógrafo, ao preocupar-se em registar as histórias narradas pelos habitantes locais, às quais acrescenta uma camada ficcional.
Ao contrário de várias abordagens ao mundo rural, o artista não investe na dimensão afetiva nem na já esgotada empatia, mesmo quando nos vídeos figuram familiares seus. Certas obras operam mesmo uma certa despersonalização, um apagamento da dimensão biográfica em favor de elementos que o artista pretende relevar e explorar. O objetivo não é contar histórias ou propor narrativas, já que a sua obra não é ativista nem militante, antes se constrói através do indício, da sugestão e do fragmento. Não é uma obra explosiva mas contida, onde determinadas figuras, não necessariamente humanas, assumem uma certa solenidade ou gravitas.
E aqui entramos num terceiro ponto que merece ser enfatizado: a relação entre natureza e cultura, humanos e não-humanos, problemática amplamente abordada no campo da criação contemporânea, mas também da antropologia, onde tende a ser designado por viragem ontológica. Há muito que o artista vem desafiando a centralidade do sujeito humano enquanto protagonista, privilegiando frequentemente outras entidades – como os animais, as plantas, os fenómenos meteorológicos ou as pedras. Estas últimas ocupam mesmo um lugar de destaque em algumas das suas obras, transitando da condição de objetos inertes para substâncias vivas, como se igualassem os humanos na sua capacidade de interferir no mundo. Mas também aqui não há uma tentativa de higienizar ou enobrecer o rural. Ao contrário do que prega uma certa mentalidade urbanita, o campo nunca foi, para os seus habitantes, um lugar de igualdade e harmonia. O que a obra do Alexandre nos traz é o universo da ruralidade abordado em toda a sua complexidade, sem ativismos panfletários ou juízos de valor: ele é natureza e cultura, vernacular e industrial, mundano e misterioso, utilitário e simbólico, racional e transcendente.

ANO YEAR · 2025/2026
Texto de Folha de sala Exibition text · Maria Manuela Restivo
GALERIA GALLERY · sismógrafo, PORTO, PT
Produção Production · Carolina Fangueiro, Pedro Huet, Rita Senra
Montagem Assembly · Francisco Morão, Jorge Pinheiro (bahn)
Tradução e revisão Translation and copy-editing · Carolina Fangueiro
Design · Macedo Cannatà
Programa Público PUblic Program · Letícia Costelha
Programa editorial Editorial Program · Maria João Macedo
Impressão do cartaz Poster printing · Rodrigo Neto (Oficina Atalaia)
Agradecimentos Agknowledgemnts · Maria Ruivo, Maria Manuela Restivo