Exposição Individual Solo Exhibition
Por Alexandre Delmar + Maria Ruivo (A Recoletora)
Mira Forum | Porto
15.06.2024 — 27.07.2024

"Enlaçar a boca às coisas” é uma exposição instalativa que reflete sobre a importância cultural e prática da oliveira, a partir da comunidade da aldeia de Lagoa, em Trás-os-Montes. Através de ferramentas e estratégias, gestos e rituais, narrativas e ficções, a exposição destaca a relação umbilical da oliveira com a história da alimentação e o sofisticado saber fazer corporal que permitiu o constante entrelaçamento entre seres humanos e esta espécie vegetal. Partindo do arquivo de imagens, vídeos e textos de Alexandre Delmar, convida-se à deambulação na instalação e à fruição participada do espectador, que se torna ele próprio matéria na construção do projeto.
"Entangling the mouth to things” is an installation exhibition that reflects on the cultural and practical importance of the olive tree, based on the community of the village of Lagoa, in Trás-os-Montes. Through tools and strategies, gestures and rituals, narratives and fictions, the exhibition highlights the umbilical relationship of the olive tree with the history of food and the sophisticated bodily know-how that allowed the constant intertwining between human beings and this plant species. Based on Alexandre Delmar's archive of images, videos and texts.

Vista frontal da exposição. Front view of the exhibition
Vulto Manta
/ Texto de folha de sala por João Terras
Para onde olhamos, no centro de tudo, está um campo de oliveiras. Nesta galeria, está uma oliveira só. Está um velho que ergue o braço e bate na árvore, está o cansaço da mão e a ferida na planta, essa espécie de bolbo que vemos na imagem resultado das pancadas sobre os ramos. Está a bota com o vinho e o frio do inverno. Está o agitar de uma paulada, estão as folhas a agitarem-se tremulamente, estão as azeitonas a caírem no chão. Está essa osmose inimaginável do fruto morto ao azeite. Está a mitologia desde que somos seres até termos fé onde esta planta e este alimento se untaram. Por isso, no centro disto tudo está o rumor de tudo isto.
Todos os dezembros, ou perto do final do ano, os que já lá vivem e os que para lá caminham, juntam-se na aldeia de Lagoa, em Trás-os-Montes, Portugal. Não existe romance mais profundo do que pensar no que possa passar atrás dos montes. Fetiche primitivo e cénico que idealizamos com premonição, aquilo que está para lá das montanhas sempre nos interrogou. As grutas não podiam ter ficado noutro lugar que não nas montanhas, as nascentes de água, as cascatas, as florestas, os picos, tudo isto está além, atrás das montanhas.
Como qualquer outro que, a todos os dezembros, viajava até Lagoa, Alexandre Delmar foi registando aquilo a que chamaria “actos”, acto I, acto II, vários actos ao longo de vários anos. Foi redigindo uma possível historiografia heteróclita a partir das narrativas paralelas, dos contos, dos mitos, daquilo que ganha forma no lugar das coisas informes. Naquilo que são as linguagens código, naquilo que é sabido entre uma comunidade e nas coisas que são da potência da intuição e da pulsão. História de dentro da boca e da fala, conexões entre humano e animal, humano e vegetal, vegetal e animal, animal e espiritual, humano e espiritual, gravitações que reverberam nas práticas, nos fazeres e que, por sinapse, se estabelecem nos costumes.
Mas um acto, mesmo que inserido numa possível coreografia arrítmica e insubordinada que Alexandre tenta constituir de forma intuitiva, mesmo que seja um acto dessa possível historiografia do informe, um acto é ainda uma forma, uma coisa concreta, uma parte, uma divisão ou uma ação em potência de algo. Por isso, se no centro desta galeria está já tudo aquilo que falamos no início, isto a que chamou de actos, nunca foram actos, nunca foram e hoje serão ainda menos.
Será um vulto, uma omnipresença, com ainda maior força, um fantasma. Tudo isto será afinal uma história dos vultos, de algo que existe inexplicavelmente entre todas as coisas e espaços.
E aqui chegamos, a uma possível resposta para o que andou todo o tempo a fazer, a condição do artista que se funde na condição do coletivo, onde se fundem Alexandre Delmar e Maria Ruivo e todos os que gravitam em torno desta história paralela que é A Recoletora. A imagem a transpor-se em alimento, a boca em conversa, um lugar ainda mais difuso e entrosado nesta outra construção de um outro lugar.
A potência da imagem, seja ela a partir da câmara fotográfica, do filme, do som, do objeto, do conto escrito ou do desenho, sempre esteve na tentativa de encontrar um registo para o fantasma, de registar esse vulto, essa impossibilidade, essa alma agregadora e indefinível que unia corpo, ação e espaço.
Isto a que poderíamos chamar a história dos vultos, em contrapartida à história das coisas, e que estende-se de Lagoa a outros lugares, está na osmose da azeitona ao azeite, está na mão das pessoas que vivem e que executam estes trabalhos de retirar da árvore o fruto, está na teia da aranha que desenha a mesma forma que a cicatriz da manta, está no silêncio das árvores e dos animais que vagueiam. Está agora aqui.
Uma árvore não se torna génio por acaso, ela tem esse génio, essa alma. Por isso estaremos até ao fim, e sem fim, a escrever uma possível história de algo que não tem o humano no centro.
Ao caminharmos neste túnel paralelepípedo da galeria percorremos o ritmo da montagem: primeiro vulto, vulto-manta; segundo vulto, manta-fruto; terceiro vulto, fruto-árvore; quarto vulto, vulto-montanha. Esse vulto maior assola todo o centro, nesse centro onde está tudo. Essa manta que voltará para a montanha.
Por fim o silêncio, a isca, a transumância do artista do rio à montanha, do pescador ao pastor, o silêncio do homem em cima daquela pedra olhando o rio selvagem e o que se passa atrás das montanhas. Todos falam sobre a tragédia.
Ouvimos o rumor de que, num dos seus passados, o espaço da galeria foi o de uma fábrica. Boaproa – Fábrica Portuguesa de Redes de Pesca.



"Sem título", 2022
2 fotografias. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 80x100cm
Lagoa, Trás-os-Montes





















"O Léxico da Manta", 2022
17 fotografias. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 12x15cm
Lagoa, Trás-os-Montes



"Pardal", 2023
Fotografia. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 50x63cm
Serra da Estrela
“O Pardal, o macho do Amâncio, bebia no tanque da fonte e preparava-se para espantar moscardos impertinentes, espojando-se na terra. Aquele macho era conhecido por apenas respeitar o dono. Respeitar, no sentido de reconhecê-lo como a entidade de duas patas que lhe fornece a palha e o caçoilo com o resto das verduras que sobram das refeições e nada mais. Compraram a besta em Izeda a um cigano que o fez a bom preço para instrumento de trabalho. Só tinha de decorar o caminho e ir à corriça todos os dias, levar os cântaros vazios e trazê-los cheios de leite, ainda morno, das cabras do Zé Frade.
Enquanto o Pardal sacudia-se do excesso de pó, o Manel, num salto de duas pernas, coloca-se no lombo do animal que dá um coice no ar. Como não tinha albarda, nem apoios a não ser a crina, o humano cai com os costelos no chão. Não satisfeito com a façanha de cavalo selvagem e a risota provocada aos presentes, pisa-o na mão direita com o casco e o peso de animal bruto. A força foi tanta que três dedinhos soltaram-se do resto do corpo: médio, anelar e mindinho. Sem pia, baptizou-se ali mesmo, o Manel mão-de-cabra, detentor de indicador e polegar.”

"Teias", 2022
Fotografia. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 75x100cm
Lagoa, Trás-os-Montes
“Imediatamente após a lavra nos terrenos dos olivais, as aranhas tecem nas hastes altas das ervas que não foram arrancadas. O Palão aproveita para isco as varejas e os moscardos presos nas teias.”


"Breve história sobre a indiferença dos peixes segundo as oliveiras", 2015
Vídeo Full HD, som. 3' 14’’
Lagoa, Trás-os-Montes.

"Mesa Sementeira", 2024
MDF verde, com 243 concavidades circulares
Fto. 248x100x1,9cm





"Sem Título", 2015
Vídeo Full HD, som. 2' 28’’ (loop)
Lagoa, Trás-os-Montes.
“Se há árvore que enlaça o mundo natural às coisas da cultura e do espírito é esta besta que manda as raízes para as profundezas e agarra-se à terra com a violência de quem exige viver milhares de anos. A pomba de Noé não trouxe à arca uma folha de carvalho.
Era assim que o Chicheiro de Lagoa caracterizava os olivais que o pai lhe deixou e que eram mais de três hectares todos dispersos pelas fragas e montes transmontanos. Quem o conhecia dizia que durante a apanha da azeitona, de novembro a dezembro, tinha sempre um caroço deste fruto a girar na boca e que o mantinha ali, até ao fim da campanha, como se a semente em movimento no palato lhe impusesse o ritmo para bater nas oliveiras com as varas que lhe serviam de extensão ao corpo."

"Varas e vareiros", 2022
Fotografia. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 80x93cm
Lagoa, Trás-os-Montes





“A ronha da oliveira é provocada pela «Pseudomonas savastanoi», que penetra na árvore através dos cortes da poda ou das feridas causadas pelo varejo. Esta bactéria provoca nódulos tumorais que dificultam a circulação da seiva, formando pequenas protuberâncias arredondadas e lenhosas capazes de secar os ramos.
Em março, durante a poda, o tio João costumava retirar a ronha das suas oliveiras com a navalha palaçoulo, a mesma que usava para comer. Em maio, começavam a aparecer-lhe os primeiros cravos no céu da boca.”

"Ronha", 2024
Fotografia. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 105x145cm
Lagoa, Trás-os-Montes



ANO YEAR · 2024
CO-AUTORES COAUTHORS · Alexandre delmar & Maria Ruivo (A REcoletora)
Texto de Folha de sala Exibition text · João Terras
GALERIA e Produção GALLERY & Production · MIRA FORUM, PORTO, PT
financiamento FUNDING · República Portuguesa, DG Artes, RPAC
PARCERIA PARTNERS · Colégio das Artes, Air 351, Fundação Júlio Resende
Exposição Individual Solo Exhibition
Por Alexandre Delmar + Maria Ruivo (A Recoletora)
Mira Forum | Porto
15.06.2024 — 27.07.2024

"Enlaçar a boca às coisas” é uma exposição instalativa que reflete sobre a importância cultural e prática da oliveira, a partir da comunidade da aldeia de Lagoa, em Trás-os-Montes. Através de ferramentas e estratégias, gestos e rituais, narrativas e ficções, a exposição destaca a relação umbilical da oliveira com a história da alimentação e o sofisticado saber fazer corporal que permitiu o constante entrelaçamento entre seres humanos e esta espécie vegetal. Partindo do arquivo de imagens, vídeos e textos de Alexandre Delmar, convida-se à deambulação na instalação e à fruição participada do espectador, que se torna ele próprio matéria na construção do projeto.
"Entangling the mouth to things” is an installation exhibition that reflects on the cultural and practical importance of the olive tree, based on the community of the village of Lagoa, in Trás-os-Montes. Through tools and strategies, gestures and rituals, narratives and fictions, the exhibition highlights the umbilical relationship of the olive tree with the history of food and the sophisticated bodily know-how that allowed the constant intertwining between human beings and this plant species. Based on Alexandre Delmar's archive of images, videos and texts.

Vista frontal da exposição. Front view of the exhibition
Vulto Manta
/ Texto de folha de sala por João Terras
Para onde olhamos, no centro de tudo, está um campo de oliveiras. Nesta galeria, está uma oliveira só. Está um velho que ergue o braço e bate na árvore, está o cansaço da mão e a ferida na planta, essa espécie de bolbo que vemos na imagem resultado das pancadas sobre os ramos. Está a bota com o vinho e o frio do inverno. Está o agitar de uma paulada, estão as folhas a agitarem-se tremulamente, estão as azeitonas a caírem no chão. Está essa osmose inimaginável do fruto morto ao azeite. Está a mitologia desde que somos seres até termos fé onde esta planta e este alimento se untaram. Por isso, no centro disto tudo está o rumor de tudo isto.
Todos os dezembros, ou perto do final do ano, os que já lá vivem e os que para lá caminham, juntam-se na aldeia de Lagoa, em Trás-os-Montes, Portugal. Não existe romance mais profundo do que pensar no que possa passar atrás dos montes. Fetiche primitivo e cénico que idealizamos com premonição, aquilo que está para lá das montanhas sempre nos interrogou. As grutas não podiam ter ficado noutro lugar que não nas montanhas, as nascentes de água, as cascatas, as florestas, os picos, tudo isto está além, atrás das montanhas.
Como qualquer outro que, a todos os dezembros, viajava até Lagoa, Alexandre Delmar foi registando aquilo a que chamaria “actos”, acto I, acto II, vários actos ao longo de vários anos. Foi redigindo uma possível historiografia heteróclita a partir das narrativas paralelas, dos contos, dos mitos, daquilo que ganha forma no lugar das coisas informes. Naquilo que são as linguagens código, naquilo que é sabido entre uma comunidade e nas coisas que são da potência da intuição e da pulsão. História de dentro da boca e da fala, conexões entre humano e animal, humano e vegetal, vegetal e animal, animal e espiritual, humano e espiritual, gravitações que reverberam nas práticas, nos fazeres e que, por sinapse, se estabelecem nos costumes.
Mas um acto, mesmo que inserido numa possível coreografia arrítmica e insubordinada que Alexandre tenta constituir de forma intuitiva, mesmo que seja um acto dessa possível historiografia do informe, um acto é ainda uma forma, uma coisa concreta, uma parte, uma divisão ou uma ação em potência de algo. Por isso, se no centro desta galeria está já tudo aquilo que falamos no início, isto a que chamou de actos, nunca foram actos, nunca foram e hoje serão ainda menos.
Será um vulto, uma omnipresença, com ainda maior força, um fantasma. Tudo isto será afinal uma história dos vultos, de algo que existe inexplicavelmente entre todas as coisas e espaços.
E aqui chegamos, a uma possível resposta para o que andou todo o tempo a fazer, a condição do artista que se funde na condição do coletivo, onde se fundem Alexandre Delmar e Maria Ruivo e todos os que gravitam em torno desta história paralela que é A Recoletora. A imagem a transpor-se em alimento, a boca em conversa, um lugar ainda mais difuso e entrosado nesta outra construção de um outro lugar.
A potência da imagem, seja ela a partir da câmara fotográfica, do filme, do som, do objeto, do conto escrito ou do desenho, sempre esteve na tentativa de encontrar um registo para o fantasma, de registar esse vulto, essa impossibilidade, essa alma agregadora e indefinível que unia corpo, ação e espaço.
Isto a que poderíamos chamar a história dos vultos, em contrapartida à história das coisas, e que estende-se de Lagoa a outros lugares, está na osmose da azeitona ao azeite, está na mão das pessoas que vivem e que executam estes trabalhos de retirar da árvore o fruto, está na teia da aranha que desenha a mesma forma que a cicatriz da manta, está no silêncio das árvores e dos animais que vagueiam. Está agora aqui.
Uma árvore não se torna génio por acaso, ela tem esse génio, essa alma. Por isso estaremos até ao fim, e sem fim, a escrever uma possível história de algo que não tem o humano no centro.
Ao caminharmos neste túnel paralelepípedo da galeria percorremos o ritmo da montagem: primeiro vulto, vulto-manta; segundo vulto, manta-fruto; terceiro vulto, fruto-árvore; quarto vulto, vulto-montanha. Esse vulto maior assola todo o centro, nesse centro onde está tudo. Essa manta que voltará para a montanha.
Por fim o silêncio, a isca, a transumância do artista do rio à montanha, do pescador ao pastor, o silêncio do homem em cima daquela pedra olhando o rio selvagem e o que se passa atrás das montanhas. Todos falam sobre a tragédia.
Ouvimos o rumor de que, num dos seus passados, o espaço da galeria foi o de uma fábrica. Boaproa – Fábrica Portuguesa de Redes de Pesca.




"Sem título", 2022
2 fotografias. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 80x100cm
Lagoa, Trás-os-Montes




















"O Léxico da Manta", 2022
17 fotografias. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 12x15cm
Lagoa, Trás-os-Montes



"Pardal", 2023
Fotografia. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 50x63cm
Serra da Estrela
“O Pardal, o macho do Amâncio, bebia no tanque da fonte e preparava-se para espantar moscardos impertinentes, espojando-se na terra. Aquele macho era conhecido por apenas respeitar o dono. Respeitar, no sentido de reconhecê-lo como a entidade de duas patas que lhe fornece a palha e o caçoilo com o resto das verduras que sobram das refeições e nada mais. Compraram a besta em Izeda a um cigano que o fez a bom preço para instrumento de trabalho. Só tinha de decorar o caminho e ir à corriça todos os dias, levar os cântaros vazios e trazê-los cheios de leite, ainda morno, das cabras do Zé Frade.
Enquanto o Pardal sacudia-se do excesso de pó, o Manel, num salto de duas pernas, coloca-se no lombo do animal que dá um coice no ar. Como não tinha albarda, nem apoios a não ser a crina, o humano cai com os costelos no chão. Não satisfeito com a façanha de cavalo selvagem e a risota provocada aos presentes, pisa-o na mão direita com o casco e o peso de animal bruto. A força foi tanta que três dedinhos soltaram-se do resto do corpo: médio, anelar e mindinho. Sem pia, baptizou-se ali mesmo, o Manel mão-de-cabra, detentor de indicador e polegar.”

"Teias", 2022
Fotografia. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 75x100cm
Lagoa, Trás-os-Montes
“Imediatamente após a lavra nos terrenos dos olivais, as aranhas tecem nas hastes altas das ervas que não foram arrancadas. O Palão aproveita para isco as varejas e os moscardos presos nas teias.”


"Breve história sobre a indiferença dos peixes segundo as oliveiras", 2015
Vídeo Full HD, som. 3' 14’’
Lagoa, Trás-os-Montes.

"Mesa Sementeira", 2024
MDF verde, com 243 concavidades circulares
Fto. 248x100x1,9cm





"Sem Título", 2015
Vídeo Full HD, som. 2' 28’’ (loop)
Lagoa, Trás-os-Montes.
“Se há árvore que enlaça o mundo natural às coisas da cultura e do espírito é esta besta que manda as raízes para as profundezas e agarra-se à terra com a violência de quem exige viver milhares de anos. A pomba de Noé não trouxe à arca uma folha de carvalho.
Era assim que o Chicheiro de Lagoa caracterizava os olivais que o pai lhe deixou e que eram mais de três hectares todos dispersos pelas fragas e montes transmontanos. Quem o conhecia dizia que durante a apanha da azeitona, de novembro a dezembro, tinha sempre um caroço deste fruto a girar na boca e que o mantinha ali, até ao fim da campanha, como se a semente em movimento no palato lhe impusesse o ritmo para bater nas oliveiras com as varas que lhe serviam de extensão ao corpo."

"Varas e vareiros", 2022
Fotografia. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 80x93cm
Lagoa, Trás-os-Montes





“A ronha da oliveira é provocada pela «Pseudomonas savastanoi», que penetra na árvore através dos cortes da poda ou das feridas causadas pelo varejo. Esta bactéria provoca nódulos tumorais que dificultam a circulação da seiva, formando pequenas protuberâncias arredondadas e lenhosas capazes de secar os ramos.
Em março, durante a poda, o tio João costumava retirar a ronha das suas oliveiras com a navalha palaçoulo, a mesma que usava para comer. Em maio, começavam a aparecer-lhe os primeiros cravos no céu da boca.”

"Ronha", 2024
Fotografia. Impressão jacto de tinta em papel fine art mate 310g
Fto. 105x145cm
Lagoa, Trás-os-Montes



ANO YEAR · 2024
CO-AUTORES COAUTHORS · Alexandre delmar & Maria Ruivo (A REcoletora)
Texto de Folha de sala Exibition text · João Terras
GALERIA e Produção GALLERY & Production · MIRA FORUM, PORTO, PT
financiamento FUNDING · República Portuguesa, DG Artes, RPAC
PARCERIA PARTNERS · Colégio das Artes, Air 351, Fundação Júlio Resende