Depois das viagens que fizemos pelo Alto Douro para conhecer as vinhas onde o enólogo Luís Seabra compra as uvas especiais, apercebi-me da qualidade dos seus vinhos. Suponho que, a sua actividade e o vinho que cria tem mais de artista/alquimista, que propriamente de enólogo. Contudo, a sua incapacidade de abrandar nas curvas e contracurvas daquelas estradas do Alto Douro contrasta com esse talento.
Das várias pessoas que trabalham com o enólogo, retive na memória o Diamantino na sua tanoaria centenária, possuidor das mãos mais grossas, impermeáveis a farpas de carvalho e talvez a pregos. De todos aqueles utensílios milenares de cor serrim, aquelas manápulas, em forma de ferramenta, destacavam-se.
A Lucília, com mais de 80 anos, ainda andava pelas vinhas a trabalhar. Queixava-se das agruras da vida e das partilhas familiares mal feitas. O homem morreu-lhe à pouco.
Em Favaios, a padeira Manuela Barriguda, depois de fazer as fendas aos trigos de quatros cantos, contava-me história da sua mãe, também padeira. O povo teimava em chamar beiças à senhora sua mãe. “Lá vem o trigo da beiças”, diziam. Ela, que de beiçuda tinha pouco, autorizou a filha a responder que beiças apenas tinha na cona. Temendo as desconsiderações da garota, começaram a chamar-lhe Manuela Barriguda, em memória do nome do pai, António Barrigudo.
Entre as deambulações pelo Douro de Verão e Inverno, confirmei a manta de nevoeiro matinal das Covelinhas, vi santos e santinhas padroeiras das uvas e das vindimas, perdi-me num caminho de cabras na Mêda e em Sabrosa rebentei o radiador do Alfa a descer uma ladeira.
No final, a falar de azedas bravias na salada, o Luís Seabra revela que, possivelmente, eu também tenho o “chamamento da montanha”.



































ANO YEAR · 2017
CLIENT CLIENT · LUÍS SEABRA
DIREÇÃO CRIATIVA CREATIVE DIRECTION · ALEJANDRA JAÑA
LOCAL LOCATION · ALTO DOURO, PORTUGAL
Depois das viagens que fizemos pelo Alto Douro para conhecer as vinhas onde o enólogo Luís Seabra compra as uvas especiais, apercebi-me da qualidade dos seus vinhos. Suponho que, a sua actividade e o vinho que cria tem mais de artista/alquimista, que propriamente de enólogo. Contudo, a sua incapacidade de abrandar nas curvas e contracurvas daquelas estradas do Alto Douro contrasta com esse talento.
Das várias pessoas que trabalham com o enólogo, retive na memória o Diamantino na sua tanoaria centenária, possuidor das mãos mais grossas, impermeáveis a farpas de carvalho e talvez a pregos. De todos aqueles utensílios milenares de cor serrim, aquelas manápulas, em forma de ferramenta, destacavam-se.
A Lucília, com mais de 80 anos, ainda andava pelas vinhas a trabalhar. Queixava-se das agruras da vida e das partilhas familiares mal feitas. O homem morreu-lhe à pouco.
Em Favaios, a padeira Manuela Barriguda, depois de fazer as fendas aos trigos de quatros cantos, contava-me história da sua mãe, também padeira. O povo teimava em chamar beiças à senhora sua mãe. “Lá vem o trigo da beiças”, diziam. Ela, que de beiçuda tinha pouco, autorizou a filha a responder que beiças apenas tinha na cona. Temendo as desconsiderações da garota, começaram a chamar-lhe Manuela Barriguda, em memória do nome do pai, António Barrigudo.
Entre as deambulações pelo Douro de Verão e Inverno, confirmei a manta de nevoeiro matinal das Covelinhas, vi santos e santinhas padroeiras das uvas e das vindimas, perdi-me num caminho de cabras na Mêda e em Sabrosa rebentei o radiador do Alfa a descer uma ladeira.
No final, a falar de azedas bravias na salada, o Luís Seabra revela que, possivelmente, eu também tenho o “chamamento da montanha”.


































ANO YEAR · 2017
CLIENT CLIENT · LUÍS SEABRA
DIREÇÃO CRIATIVA CREATIVE DIRECTION · ALEJANDRA JAÑA
LOCAL LOCATION · ALTO DOURO, PORTUGAL